Sobre o caso
Fabiola. Mas antes, sobre meu caso.
Tudo o que vão
ler agora, é uma Escrevivência (palavra dita pela escritora negra Conceição
Evaristo), que gostei e usarei sempre, pois
escrevo apenas sobre MINHAS vivências.
Mantive um
relacionamento, com um homem não negro, durante 11 anos. Sendo 8 deles de
namoro e 3 de casados.
No período que
era para vivermos “felizes para sempre”, o sempre teve gosto de violência
simbólica e também física .
Costumo
denominar esse período, como sendo meus
11 anos de escravidão. Ou ainda, europeiamente dizendo, meu período das "trevas"
(relembrando a idade média), em direção ao renascimento.
Algumas de
minhas posturas eram vistas com a versão, pelo meu ex companheiro. Era muito
emancipada, atrevida. Para ele, eu queria ser o "homem" da relação.
Mas, era eu quem
decidia determinadas ações, quem controlava gastos e quem detinha a fonte de
renda maior naquela casa.
Assim, cheguei a
arcar com responsabilidades financeiras de "pai", diante de seu
primeiro casamento, que havia gerado um filho.
As brigas eram
frequentes. O modelo de homem do qual me recordava estavam na figura de meu pai
e dos meu dois tios maternos. Esses, trabalhavam fora e dividiam as atividades
domésticas com suas esposas. Ficar deitado no sofá, era algo raro.
Meu pai, mesmo
com todas as críticas que tenho a ele, recordo-me ainda criança, que aos
domingos vendia diversas quinquilharias na feira, para complementar a renda
familiar. Concertos de casa, outro homem, ou até mesmo a mulher, não colocava a
mão.
Dessa forma,
ficava irritada quando era eu quem tinha que complementar, renda ou até fazer algumas atividades, ditas
como “tarefas de homem”.
Minha
personalidade sempre foi de ações sociais, mas "aparecer" mais que
meu ex, era inadmissível.
Assim,
engavetei, acreditando que evitaria brigas, alguns de meus sonhos reais.
Nunca fui de
combinar roupas com sapatos, com bolsas,
com nada. Minha família diz, até hoje, que sou a própria caixinha de lápis de
cor. Minha forma de vestir começou a ser
assuntos inicias de briga: - Nossa, onde vai assim? Parece que está usando fradão!
Gostava de usar lenços, que hoje uso como turbantes, amarrados na cintura, para
dar uma outra visão ao uniforme que usava.
Minha voz passou
a ser alta de mais, passei de "princesa", a chata e gorda da
relação.
Meu libido mega
aguçado era visto como impróprio. Cheguei a ser comparada a ex presidiária que havia acabado de sair do
cárcere e por isso estava no cio.
Passei algumas
noites sozinha, sem ser atendida pelo celular, tão pouco sabia seu paradeiro. E
quando retornava, a discussão era certa e seguidas de agressões físicas e
verbais, das quais eu acreditava (naquele período) ser a única culpada. Pois,
eu era abusada de mais. Também! queria ser o homem da casa!? Onde já se viu?
Na sequência
vieram as traições. Isso mesmo, AS traições.
Era incrível como conseguia saber de todas as "escapadas" e ao
mesmo tempo não saber nada. Escutava que
estava louca, tão em surto, que conseguia ver coisas onde não tinha nada. Mas a verdade,
é que ele deixava até de trabalhar para dar algumas dessas escapadas. Claro, no
horário de trabalho, assim, não deixaria suspeitas.
O ponto crucial
pra que eu "deixasse" tudo, foi descobrir que uma das possíveis
mulheres com quem ele se relacionou, não
era uma mulher. Era sim uma adolescente com idade que se aproximava a da minha
filha.
Meu processo de
saída do lar, durou quase 1 ano. Entre encaixotar meus pertences, conversar com
minha família e realmente, sair da casa em que investi muito, com as remunerações
que recebia de duas escolas que lecionava, ainda sim, foi algo doloroso.
O que tudo isso
tem haver com o caso Fabiola? Talvez nada. Mas ao ver o vídeo, expondo uma
mulher da forma como foi, me chocou a ponto de relembrar tudo o que passei em
meu dito relacionamento.
Talvez Fabiola
(meu achismo), tivesse passado por situações das quais passei e relatei nessas
linhas. Ou, até coisas piores, quem é que sabe!?
Hoje, fazendo
uma análise bem fria da minha frustrante experiência conjugal, me faz pensar,
que são esses tipos de "homens", que realmente merecem UNS belos e
lindos pares de chifres.
Só que não. Vivemos numa sociedade tão machista, que
manter relações sexuais, fora do casamento, só cabem aos homens. E ainda sim, visto como natural. Instinto.
Escrevo tudo
isso, pois mesmo tendo passado pelas situações descritas, fui taxada como a
vilã da separação: - Nossa, teve coragem
de abandonar o lar? Teve coragem de abandonar o fulano no momento (cirurgia) em
que ele mais precisava? Teve coragem de deixar a casa vazia?
Que mulher ruim
eu fui hein!?
Ufaaa. Em fim, o
renascimento.
A saída das trevas para a luz preta que hoje me
guia.
Gostaria que
Fabiola pudesse ler minha Escrevivência.
Esse
renascimento, deixando de lado o renascimento europeu que citei logo no início, que pudesse passar e sentir, ensinou-me que quando uma mulher sobe, puxa a
outra.
Fabiola,
sinta-se puxada por mim.
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