Desabafo/ Joice Aziza

    A luta do povo preto, da mulher preta é marcada por crueldades desumanas. Lembremos de Cláudia, por violências domésticas, Maria da Penha. Perdas irreparáveis de companheiros (Amarildo), sentindo a dor da perda de um filho (Eduardo), e de irmãos e amigos perdidos. Mesmo com tudo, estamos persistindo em nossa história. História essa, que não será apaga.
    Não queremos  vagões cor de rosa, separados dos de mais. Queremos respeito. Não somos pretas neuróticas, recalcadas, mal amadas e que vemos o racismo em tudo.
  Para os povos nagôs e ioruba, o Ayê (Terra), foi criada por uma guinè (mulher), chamada Odudua. Portanto acredito, já que o planeta foi criado por uma mulher, que  o poder maior, está entre nós. Esse poder, está em nossas mãos. Todo tipo de poder deve permanecer em nossas mãos. 
  Nós mulheres negras, sofremos uma discriminação dupla.  Primeiro, por sermos mulheres. E segundo, por sermos negras. A questão de gênero não vem antes da questão racial, do alguns pressupõem. 
    Nesse mesmo raciocínio, as mulheres negras lésbicas, sofrem “triplamente”.
   Queremos sair dessa herança escravista. Sair da estatística do IPEA, em que somamos 61%, dentro dos trabalhos domésticos  e que ainda somos em maior número em exploração sexual.
  Somos maioria nos empregos temporários, nos Call Center, mas somos minoria dentro das Universidades públicas e também em cargos públicos.
  Somamos o maior índice de mulheres viúvas, de mães solteiras e mães  que perdem seus filhos antes mesmo de chegarem a maioridade .
   No quesito chefe de famílias também aparecem as mulheres negras como protagonistas.   Ou por termos nossos companheiros mortos, ou pelo simples fato, dos  pais biológicos, optarem pela não paternidade. 
  Ainda na linha de raciocínio  de opção de uma gestação continuar ou não.  Observamos que uma parcela masculina optam pelo “aborto paternal”. Já  as mulheres quando optam por tal decisão, são recriminadas e chegam a sofrer represarias diante da sociedade. E junto a isso,  sabemos  que as mulheres negras e periféricas,  sofrem muito mais com a penalização do aborto. Pois as mulheres que tem um poder aquisitivo maior, farão seus abortos com todo o cuidado que o dinheiro pode pagar. 
  O ano atual (2015), registra um cenário histórico político mais conservador de toda nossa história. Nós  mulheres fomos obrigadas a ouvir do deputado  Bolsonaro,  que deveríamos ganhar menos (isso já ocorre), por engravidarmos e por tirarmos licença maternidade, que direito trabalhista adquirido, sob alegação de  prejuízo ao patrão. Se não fosse pouco, a deputada Maria do Rosário, teve que escutar que não merecia ser estuprada (palavras de Bolsonaro, novamente), pois ela era feia.
Vivenciamos uma política que reduz as parcelas de pensão por falecimento de maridos. Que acredita que a solução para a marginalização social, seja a redução da maioridade penal. E se observarmos as estatísticas de mortalidade, chegaremos a uma conclusão de que os mais atingidos serão, novamente, os negros e os pobres. E com a aprovação da PL (4.330/04), tercerização do trabalho. Sem dúvida tudo isso, nos levará a um retrocesso histórico. Retrocesso, para classe negra, pobre e trabalhadora. 
Um retrocesso à brasileira.


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