Sobre quando você opta por não ser aquilo que os outros (a sociedade) espera que você seja.




Toda vez que olho para trás em busca de um ponto chave que explique por que hoje eu sou o que sou, não consigo encontrar um ponto especifico e crucial que justifique essa minha formação pessoal.
Acredito que o fato de gostar de estudar, os estudos e a escola em si tenha grande parcela de responsabilidade sobre isso sim, mas também acredito que em cada dia de minha vida acontecera algo que deixara uma sementinha que futuramente viria a influenciar de uma forma ou de outra, na menina mulher que hoje sou.
Mulher,negra,feminista,professora de artes e alfabetizadora, revolucionária, sonhadora, estudiosa (gosto de aprender), agnóstica, hétero, gorda, pisciana, comunista, amante da fauna e de viagens, mimada e sem sonhos de se casar e de ser mãe.
Este seria o que o eu chamo de “auto retrato verbal”. Sintetiza tudo o que eu sou. Influencia fortemente em minhas decisões e em minha forma de pensar sobre tudo e sobre todas as minhas atitudes, mesmo não tendo a certeza de que seria ao certo esta, mesma imagem que as pessoas tem de mim.
Mas como eu me transformei em tudo isso? Justo eu, que tinha tudo pra ser totalmente o oposto de grande parte de tudo isso que hoje eu sou?
Filha mais velha de uma família formada por uma mãe baiana, não alfabetizada, dona de casa, negra, católica, depressiva, machista e “amélia” e um pai mineiro, negro, católico, funcionário dos correios, grosseiro e truculento e mais dois irmãos mais novos. Todos morando em um sítio.
Então... Talvez seja isso.
Hoje, amo muito minha família e me orgulho muito deles e tudo que puderam me ensinar, mas talvez na infância, o fato de gostar de estar na escola, simplesmente pra não ter que estar em casa, fugindo assim de ter que vivenciar  aquele âmbito familiar, tenha sido a primeira válvula propulsora da minha formação, mas o que ainda não consigo entender é como antes mesmo dos meus sete anos de idade, antes mesmo de começar a frequentar escolas e de ter uma vida escolar, eu já tinha muitíssimo claro na minha cabeça que o que eu queria para mim não tinha absolutamente relação nenhuma com aquilo tudo que estava ao meu redor.
Nunca fui mãe das minhas bonecas. Sempre era a tia, ou a empresária, a cabeleireira ou a amiga das bonecas. Nunca gostei das bonecas bebes (aquelas carequinhas). Nunca tive pressa ou ansiedade para ter de fato um namorado (primeiro beijo aos 18 anos de idade e fim da virgindade aos 20). Sempre fui gordinha e nunca me incomodei com minha estética corporal (o que me incomoda são as pessoas que se incomodam com isso). Sempre me senti atraída por pessoas inteligentes (quando não estava interessada no menino mais inteligente da turma, eu estava interessada em um professor). 
Sempre que me levavam em alguma igreja, ficava entediada e com vontade de fazer perguntas (como na escola), mas me falavam que não podia então eu achava tudo aquilo um saco. Deixei de ter ajuda financeira dos meus pais aos 15 anos de idade. E até este presente momento sou a única pessoa na família INTEIRA (incluindo irmãos, primos e tios paternos e maternos) que concluiu o ensino superior (e estou em minha segunda graduação), que não se casou (e nem quer), e que também não tem filhos (e que também não quer).
Aah!! Também não sou corintiana (como o restante de toooda família) e também nunca tive a oportunidade de me relacionar com um homem negro (também ao contrário de tooodas as mulheres da família).
Pois é, sobre quando você opta por não ser aquilo que os outros (a sociedade) espera que você seja tudo fica mais complicado e ao mesmo tempo mais interessante.A cada dia que passa tem se tornado cada vez mais difícil estabelecer um diálogo com pessoas da minha família e com os familiares. Alguns amigos ainda torcem um pouco o nariz diante de alguns posicionamentos meus. Grande parte dos homens ainda se sente “intimidados” ao conversar com mulheres como eu.Sinto que minha presença “distoa” em alguns lugares que gosto e costumo frequentar (por exemplo livrarias, shoppings e até mesmo a sala de aula onde estudo, na faculdade de educação da Universidade de São Paulo-Feusp).

E se vocês querem saber como eu me sinto após toda essa “auto análise” e diante de tudo isso, saibam simplesmente que me sinto A MENINA MULHER MAIS PODEROSA DESTE MUNDO INTEEEIROOO..!!!! E é muito bom se sentir assim...

Juliana Caldeira 

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