Minha Primeira vez
Toda adolescente
pensa/acredita, que a primeira relação sexual será a melhor (ainda mais lendo revista Capricho), que será a mais brilhante e a mais inesquecível das
experiências.
Eu também não
fugia a regra. Acreditava em tudo isso, e até mais. E realmente, minha primeira
vez foi marcante.
Aos 34 anos
descobri que minha primeira e única gestação, isso há 17 anos, foi fruto
de um estupro.
Por viver em uma
sociedade completamente machista e patriarcal, acreditava que a minha gravidez aconteceu
por minha culpa e risco. Já que, como "mulher", tinha que me dar o
respeito, não provocar os homens. Se ele se sentisse atraído, foi por que eu o
provoquei.
Aos 16 anos me
senti atraída por um homem, 10 anos mais velho que eu. Alto, moreno (nessa
época ainda usava esse termo), olhos cor de mel, cobiçado por várias mulheres
mais velhas.
Ele usava
encantadoras palavras ao falar comigo. Eu me sentia mulher. Mas tinha medo
ainda. Ninguém sabia do nosso envolvimento. Nem mesmo minhas amigas. Na
verdade, nem minha sombra. Era muito raro nos vermos. Recordo-me apenas de
tê-lo beijado umas duas ou três vezes.
Em 1997 eu estava
prestes a receber o DRT de atriz, que é o registro profissional do trabalho na
área. E sem saber, eu subiria ao palco pela minha última vez.
Eu já atuava ha
tantos anos, adorava atuar.
Mês de março, vestida
de Maria Madalena, (com o vestido vermelho mais lindo que já havia usado), não
conseguia parar de chorar. Tão pouco conseguia pensar como seria dali pra
frente.
A peça foi um
sucesso. Maria Madalena nunca fora interpretada tão bem, com tanto fervor.
Mas eu estava
grávida.
Grávida.
E desesperada.
Dia 11 de Janeiro
de 1997: o dia. Recordo-me da data com precisão, pois foi o dia da minha vez.
Primeira e única naquele ano. A segunda, só viria acontecer dois anos
depois.
Mas a vida fora
da revista Capricho, fora da TV, na vida real, era bem diferente.
Somente agora,
consigo lembrar-me de todos os detalhes porque até então, ninguém sabia. Tampouco
eu.
Acreditava que o
sexo tradicional (sem ser anal), não podia acontecer de forma nenhuma por
trás, (esse momento foi um desespero).
Aquele homem, que
antes usava palavras bonitas ao falar comigo, estava agitado, parecia não me
ouvir. Pedia para que eu ficasse de costas inúmeras vezes. Mas eu parecia uma
árvore, enraizada ao chão. Só me movia, quando ele me forçava.
Minha calça
branca preferida, que tinha inclusive, personagens infantis bordado na coxa
direita, não passou dos meu joelhos. Minhas pernas quase não se abriram, de tão
tensa que eu estava.
Eu não abria os
olhos. Não conseguia tocar aquele homem, que até então, achava que o desejava
tanto.
Entreguei a ele a
camisinha que estava no bolso da minha jaqueta preta (ainda em meu corpo), mas
com os olhos fechados, não consegui ver se ele realmente havia
colocado, tampouco consegui olhar para aquele pedaço de corpo masculino,
que nas conversas com minhas amigas, tanto me atraía.
Não via estrelas,
não sentia prazer, não escutava minha música preferida tocar. Não ouvia as
palavras que pensava escutar: “- Tenha calma, tá doendo? Não vou te machucar,
você é linda.”
O tempo não
passava. E como eu torcia pra acabar! Pedi a ele que me levasse embora, pra que
me soltasse.
Soltar?
Então por que
veio até aqui? Está parecendo uma criancinha mimada!
Eu sentia dor,
mas não conseguia identificar de onde ela vinha. Meu corpo todo doía. Minha
cabeça doía. Tinha meus pensamentos serrados.
Não gritei, nada
falei, apenas chorei. Chorei em silêncio e de costas.
Ele já não me
apertava, começava a me soltar aos poucos. E foi então que ouvi:
- Pode levantar
as calças, eu já gozei.
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